Um livro sobre imigração, em construção

Entre Raízes e Fronteiras

A história de como um intercâmbio virou um projeto de vida inteira: do interior de São Paulo até o Canadá.


Capítulos


Capítulo 01

O Sonho que Nasceu em 2006

Cresci numa família de classe média no interior de São Paulo, cercada de primos, mimada pelos avós e protegida pelos meus pais, como toda menina do interior daquela época costumava ser. Era uma vida boa, mas era uma vida pequena, e eu não sabia disso ainda, até o dia em que consegui convencer meus pais a me deixarem fazer um intercâmbio no Canadá.

Foi assim que, em 2006, aos 22 anos e prestes a me formar em Publicidade, embarquei pela primeira vez para o Canadá.

Não sabia quase nada sobre aquele país antes de embarcar, só queria melhorar meu inglês e viver uma experiência fora do Brasil. Mas o que encontrei lá foi mais do que uma língua nova.

O que mais me impressionou foi o modelo econômico do país. O Canadá tinha, e ainda tem, uma economia mista: capitalista na sua estrutura de mercado, mas com uma rede social forte sustentando as pessoas. Saúde pública universal, garantida pelo sistema público de saúde do país (o Medicare canadense), direitos trabalhistas respeitados e uma classe média que parecia mais estável, menos espremida entre a elite e a pobreza, comparada ao que eu conhecia. Não era um sistema perfeito, mas era um sistema que parecia cuidar de quem vive nele, algo que eu não sentia da mesma forma no Brasil.

E não era só a economia. Era a sociedade em volta dela. O canadense tem fama mundial de ser educado: aquele hábito de pedir desculpas até quando não é culpado de nada, de formar fila sem reclamar, de tratar um estranho com a mesma cordialidade com que trata um vizinho de anos. No começo, parecia quase artificial de tão constante. Depois, entendi que não era encenação, era cultura, era o tecido social que sustentava tudo à minha volta.

Os direitos das mulheres também pareciam mais concretos, não apenas discursados. E a diferença nos índices de violência era gritante: em 2006, primeiro ano do meu intercâmbio, o Canadá registrou 1,85 homicídios por 100 mil habitantes, segundo a Statistics Canada. O Brasil, no mesmo ano, registrou 26,31, segundo dados do UNODC. Não era somente uma sensação, era um número, e esse número se traduzia em andar na rua à noite sem olhar pra trás, em coisas simples que, no Brasil, eu nunca soube que viviam tão tensas dentro de mim até sentir o alívio de não precisar mais senti-las.

Foi nesse contraste que o sonho nasceu, não apenas de visitar o Canadá, mas de viver nele. E mais do que isso: eu já sonhava em levar minha família comigo, para que todos tivessem mais segurança e oportunidade.

Eu não tinha medo nenhum naquela época. Mas o visto tinha prazo, e a faculdade ainda não tinha terminado. Voltei ao Brasil sabendo exatamente o que precisava fazer: um ano de experiência em um hotel cinco estrelas era o requisito para dar entrada no processo de imigração. Terminei a faculdade e parti para São Paulo.

Minha família e os amigos não entendiam. Todos pareciam olhar pra minha decisão com a mesma estranheza, como se eu estivesse recusando algo que deveria ser suficiente.

Hoje entendo que meus pais não me deram asas prontas. Me deram raízes fortes, e foram essas raízes que me deram a segurança de crescer para qualquer direção que eu escolhesse, inclusive fisicamente para longe deles.

Uma árvore com raízes profundas não teme o vento. Ela só cresce mais alto.

Foi assim que eu me senti.


Capítulo 02

Me mudei para São Paulo, para a casa onde meu irmão morava com outras três pessoas, e fui contratada por um hotel cinco estrelas, bem em frente à Rede Globo. Foi lá, nessa nova cidade e dentro do novo emprego, que conheci João.

Ele cresceu no litoral, tinha um jeito de menino malandro que me fazia rir, e ainda faz, até hoje. Mas por trás desse jeito solto e apesar de jovem, já havia uma pessoa ética, madura, responsável. Alguém que sabia exatamente o que queria e que colocava seus princípios acima de qualquer coisa. Desde o primeiro contato, eu já sentia admiração por quem ele era. Ele me fazia bem de um jeito que eu não sabia explicar direito, só sabia que era bom estar perto dele.

Trabalhávamos no mesmo turno. João é o tipo de pessoa que, quando quer se aproximar de alguém, pergunta tudo. Ele perguntava: minha infância, por que eu tinha ido pra São Paulo, minhas experiências, meus sonhos, minhas opiniões. Ele me dava carona do trabalho até em casa, e muitas vezes parávamos no caminho pra comer alguma coisa, e acabávamos ficando até as 6 da manhã conversando na lanchonete do Pão de Açúcar. A gente falava de tudo e de nada, e o tempo desaparecia. Eu perdia a noção de quantas horas tinham se passado, e não me importava. Estar com ele era natural. Me fazia bem. Eu me sentia segura, em paz.

Ele nunca foi de fingir. Uma vez, saímos com um grupo grande de colegas do hotel para jantar, e assim que terminamos de comer, uma das colegas acendeu um cigarro na mesa. João não fez cena, não discutiu com ninguém, só se levantou e foi embora, como quem não via outra opção. Não era teimosia. Era o tipo de gente que decide o que é certo pra ela e não gasta energia se explicando pros outros. Continua assim até hoje.

Eu já estava apaixonada. Não foi só o olhar ou o sorriso, foi a forma como ele existia no mundo, sem se importar com o que os outros achavam dele. Não tinha como esconder, e a gente também não escondia. Não existia jogo nem pressa. A gente só deixou acontecer no nosso tempo.

Dias antes de começarmos a namorar, recebi a notícia: meu avô tinha caído e precisava de uma cirurgia. Foi a primeira vez que senti, na pele, o que significaria estar longe se algo grave acontecesse. O sonho do Canadá, que eu carregava desde 2006, foi guardado numa caixinha. João e eu começamos a namorar, e eu comecei a escolher ficar.

Foi com ele que passei a dividir o segredo que eu guardava desde 2006: São Paulo é temporário. Um dia eu vou morar no Canadá. Diferente de todo mundo ao meu redor, que não entendia esse sonho, João entendeu na hora. Pra ele, não era ganância. Era a recusa de se estagnar, de se prender a algo que, no fundo, a gente sabia que não era o melhor.

Na época em que começamos a namorar, João tinha voltado há pouco para o Brasil e estava dando os primeiros passos para abrir um negócio com um amigo, um projeto que começou com uma ideia de bar e depois virou petshop. Essa história ele mesmo conta no próximo capítulo. A sociedade, infelizmente, não deu certo, e quando ele vendeu a empresa, decidimos juntos: um dia, vamos morar no Canadá. Até ali, o sonho tinha sido só meu, algo que eu guardava e alimentava sozinha desde 2006. Naquele momento, ele passou a ser dos dois.

Nos casamos em 2011.


Capítulo 03

Em breve.